segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Abmudos, ou aqueles que se calam diante dos absurdos
por Dal Marcondes
A história humana é acompanhada desde suas origens pelos abmudos. Aqueles que assistem os absurdos sem nada dizer. São eles os responsáveis por grande parte dos males que assolam o homem. Não importa a cultura. Não importa a época. Abmudos estiveram presentes em todas as grandes catástrofes e convivem diariamente com dramas menores. Ficam quietos quando assistem infrações de trânsito, quando percebem que alguma coisa pode dar em confusão, sempre que é necessário interferir. Ou seja, calam-se diante dos absurdos. Alguns exemplos podem ajudar a definir melhor o que é um abmudo:
Uma pessoa caminha pela calçada e vê alguém estacionando um carro sobre a mesma calçada. Ao motorista não parece importar que estará colocando outras vidas em risco por obrigar os pedestres a fazerem um perigoso desvio pela rua movimentada. Uma situação de absurdo, mas o passante não se detém em sua caminhada, desvia-se pela rua e segue seu caminho. Não tem coragem de interferir, não tem a dimensão de sua responsabilidade de cúmplice, acredita piamente que não tem nada a ver com isso. Apenas no fundo roça-lhe um vago pensamento sobre como essa situação não aconteceria em um país desenvolvido.
Esse exemplo faz recordar a história contada por outro passante em outra calçada. Ia esse por uma rua em Genebra, na Suíça, quando presenciou uma cena que em terras tupiniquim pareceria insólita: apressado, seguia pela calçada um senhor bem aparentado, terno alinhado e um pequeno papel nas mão. Após uma olhada detida no papel, amassou-o e atirou ao chão. Poucos metros atras vinha um outro homem, mais jovem, que abaixou-se e apanhou o papel amassado. Exitou um pouco mas chamou o homem de terno. "Senhor, deixou cair um papel". A resposta foi seca: "Não o quero, é lixo". E o mais jovem respondeu: "Pois é, é lixo e a cidade também não o quer". Há os que vejam nesse exemplo apenas o fato de que a civilização existe na Suíça, o que é verdade, mas ela existe em todos os lugares onde os abmudos superam seus traumas e enfrentem os absurdos.
Quase sempre há leis coibindo os absurdos e quase sempre há um abmudo os encobrindo. Não podem, na maioria das vezes, ser taxados legalmente como cúmplices, mas são quase tão culpados quanto os que cometem os absurdos. Um pequeno jogo entre as palavras absurdo e abmudo pode explicar muito da trama psicológica que envolve a relação entre as duas personagens. Os absurdos (vistos aí como os sujeitos da ação absurda) agem como surdos diante dos apelos éticos e morais que deveriam coibir suas ações. Os abmudos, por acreditarem que suas vozes não serão ouvidas, calam-se. Esse círculo vicioso acompanha a humanidade desde seus primórdios.
domingo, 25 de maio de 2008
Roberto Freire se foi!
Ontem à noite, pelo jornal da TV, recebi a notícia de que Roberto Freire, o terapeuta, o jornalista, o escritor, o homem que acreditou que “sem tesão não há solução”, morreu. Eu não via o Roberto pessoalmente há muitos anos, mas me confortava saber que ele estava bem, vivendo e amando. Sem dúvida o “Bigode”, como seus amigos e pacientes o chamavam, foi um dos homens de seu tempo que mais amou e teve tesão por tudo o que fez.
Conheci Roberto Freire em algum momento da primeira metade dos anos 70. Ele já era um mito, com passagens pelo que de melhor o jornalismo brasileiro já havia produzido, e atendia como psiquiatra e psicoterapeuta em um sobrado na rua Sarutaiá, perto da Brigadeiro e da Pamplona, área nobre da burguesia paulistana. Na época eu tinha, acho, uns 16 anos e uma cabeça bem complicada. Queria ser poeta. Em uma de nossas primeiras conversas ele, sentado em uma grande almofada escura recheada com bolinhas de isopor, vestindo um quimono, pegou um exemplar do Estadão de domingo e disse: “Sem problemas. Ache ai uma oferta de emprego para poeta e te dou alta.” Eu acho que não entendi direito na hora. Fiquei com a impressão de que ele queria me desestimular de ser poeta. Mas hoje acho que não. Ele só queria me mostrar que vida de poeta não é fácil.
Bom, de qualquer maneira não me tornei poeta. Não no sentido mais clássico do termo. Cometi algumas poesias, escrevi crônicas e me tornei jornalista. Fiquei cerca de cinco anos fazendo terapia com o Bigode. Primeiro individual e, depois, grupo. Da rua Sarutaiá se consultório foi para algum lugar perto da Lapa e, finalmente, para a rua Lopes Chaves, na Barra Funda, na mesma casa onde viveu Mário de Andrade. Foi um tempo de muitas descobertas, para dentro e para fora. Foi um tempo de libertação. Mesmo sendo filho de uma libertária, creio que a experiência de compartilhar meus pensamentos com o Roberto Freire foi estruturante em minha visão de mundo, em minha compreensão de direitos, de vontades e, principalmente, da minha sexualidade.
Participar da sessões de grupo era como ser personagem de seus livros, era pensar e ser Cléo ou Daniel. Era mergulhar nas águas da Maromba e conhecer realidades múltiplas. Roberto era um ser sensorial, capaz de amar e viver em mundos muito diferentes do comum dos mortais. Mesmo assim tinha, como poucos, a compreensão da natureza humana. Não estive com ele nestes últimos anos, apenas acompanhei a figura pública, aquela que aparecia na mídia. Mesmo assim, em poucas linhas. As fotos que vi mostravam um homem vivido, que perdeu uma vista, mas que mantinha, em seu olho bom, a chama da vida.
Até posso imaginar as preocupações que iam à mente daquele homem. Mas não ouso imaginar que sou capaz de traduzi-las. A presença de Roberto em minha vida foi como arrancar um garotinho suburbano de sua casinha de bairro e lança-lo em um mundo onde o pensamento é poderoso e a língua um instrumento de vida e morte. Não apenas Roberto Freire era um furacão dentro de mentes jovens, mas sua terapia mostrava onde os limites eram inaceitáveis e onde o corpo e a mente precisavam caminhar juntos em um precário equilíbrio.
Nos próximos dias certamente farão homenagens a Roberto, aos seu livros, à uma obra dedicada a mostrar as pessoas para elas mesmas, nuas e jogadas em uma roda viva de paixões. Suas personagens vão sair da obscuridade e viver novamente suas vidas de papel e suas sagas de sangue e amor. Cléo e Daniel retomarão sua grandeza e mais uma vez se amarão pelas pedras da Maromba. No fundo da alma das pessoas que percorreram com Roberto Freire os corredores de suas próprias existências e abriram seus mais profundos alçapões, a simples menção de seu nome, de sua morte, de sua finitude, vai acordar o desconforto de ser conformado.
A alma dele vai alvoroçar, desta vez, os anjos e, talvez, mostre a eles qual é, finalmente, seu sexo.
domingo, 18 de maio de 2008
O telefone público

Por Dal Marcondes
Bem em frente ao edifício onde moro há um telefone público. Não daqueles charmosos orelhões que se via em cada esquina do país até bem pouco tempo, mas uma cabine horrorosa de concreto com um moderno telefone de cartões dentro. Bom, apesar da aparência pouco agradável, sem dúvida que ele ouve diariamente as maiores alegrias e dramas da vida.
Da sacada do meu apartamento, no segundo andar, por vezes pego fragmentos das conversas. Não com a curiosidade de voyer, mas por mero acaso. Vivo em uma rua silenciosa e as vozes emanam daquele cubículo de concreto cortando o ar em tom de desespero: "Estava preocupada com você", disse a moça com pouco mais de 15 anos, com uma criança no colo já mais de meia noite.
O chinelo de dedo e o ar de desolação me comovem. O pequeno, não mais de seis meses, olha a tudo como um passageiro que nada tem a ver com a carruagem que lhe coube na vida. Em alguns momento eles somem, acompanhados de um pequeno e serelepe cachorro vira-latas. Pela calçada vem outra, apressada, pára perto do telefone, olha em volta como se estar ali fosse algum ilícito, abre a mão onde um papel amassado certamente contém o número secreto. Some na escuridão da cabine e pouco se ouve. Alguns sussurros e enfim reaparece na luz. Olha novamente em volta e parte tão apressada como na chegada. Alguns dias atras, por motivos que desconheço, um funcionário da companhia telefônica apareceu e retirou o telefone de seu pedestal. Pessoas que iam e vinham olhavam com espanto o altar de onde se retirou o santo milagreiro. Moças com pequenos papéis amassados vinham apressadas e voltavam decepcionadas. Alguns se aproximavam e praguejavam.
Mas um dia chego em casa e para felicidade de todos, inclusive para o grupo de meninos e meninas que reúnem-se cotidianamente na esquina onde moro, o telefone estava de volta. Novamente trazendo esperanças por seus cabos infinitos. Sob aquele feio teto de concreto está certamente guardado um pedaço de cada distante rincão onde vive o coração das gentes.
Ah, esqueci de dizer, este telefone é especial, ele não apenas permite chamadas, mas também toca. Algumas vezes me surpreendo com pessoas paradas na calçada. É uma esquina de residências, nem ao menos temos uma banquinha de revistas, mas temos esperantes, gente que espera o trinado do telefone. Sorrisos aliviados quando ouvem o metálico trim.
É bom ver essa gente, toda gente, feliz. Na era da internet um telefone público ainda pode arrancar muitos sorrisos e suspiros. Fico sempre com a esperança que um dia ele toque para mim.
